Virando o milénio a jogar RPGs

O testemunho de um roleplayer entre 1998 e 2010 (Porto, Portugal)

Comecei a jogar RPGs em 1998 juntando no Porto um grupo de amigos interessados em experimentar algo que para nós era uma total novidade. Por sugestão minha, dividimos entre nós a compra da edição Revised de Vampire: the Masquerade e aprendemos a jogar a partir deste livro. Comprei-o na loja Devir Arena Porto quanto esta ainda se localizava no piso -1 do Centro Comercial Crystal Park.

Na altura, esta loja tinha à venda principalmente livros da White Wolf e da TSR e não encontrei nenhum tipo de material introdutório, pelo que, entre vários volumes de muitas páginas, o design mais moderno da White Wolf pareceu-me poder ser mais acessível. Além disso, tive a oportunidade de assistir a algumas sessões de Vampire para tentar perceber como é que o jogo funcionava. Naqueles tempos, a ideia de encontros de RPG abertos ao público era impensável, mas alguns grupos jogavam na loja e não se importavam que eu me sentasse ao lado da mesa durante a sessão. Como eu estava lá todas as semanas, acabei por ter a oportunidade de ocupar o lugar de alguém numa ou noutra campanha e assim também fui jogando Warhammer Fantasy, Legend of the Five Rings e Vampire: the Dark Ages. Havia um grupo que jogava AD&D mas só muito raramente é que iam à loja. No contexto da altura, todas as sessões faziam parte de uma campanha longa. Qualquer sessão curta era tratada como uma brincadeira em que o mestre-jogo matava todas as personagens dos jogadores até múltiplas vezes. Além de mim, eram poucas as pessoas que gastavam dinheiro em RPGs na loja, pelo que jogar numa campanha era uma oferta que se obtinha junto dos grupos que rodeavam alguns poucos mestres-jogo. Várias pessoas principalmente interessadas em jogar Vampire ficaram de fora por também não se verem a comprar o livro para experimentarem um RPG de sua própria iniciativa. A internet estava a ganhar importância como meio de obter informação, mas não como forma de facilitar o encontro entre pessoas.

Vampiros & Dragões

Entretanto, a Wizards of the Coast ficou com o D&D da TSR e publicou em 2000 a terceira edição. Se antes, o único material novo de RPG que ia chegando à Arena era da White Wolf, agora foi quando se ligou a torneira do d20 que durante anos encharcou muitas prateleiras. Como única loja onde se podiam encontrar RPGs no Porto, a Arena foi-se abastecendo apenas a partir do catálogo da White Wolf (WW) e da Wizards of the Coast (WotC), pelo que a internet tornava-se cada vez mais útil para nos mantermos a par das novidades de outras editoras.

Notamos que D&D estava a ser bem sucedido em termos de vendas, mas curiosamente isso não se traduziu em mais gente a jogar D&D na Arena Porto. Practicamente os mesmos grupos de sempre continuaram a jogar White Wolf, nomeadamente Mage: the Ascension e novas campanhas de Vampire Masquerade e Dark Ages. No que terá sido o pico da popularidade de Vampire, chegamos a organizar dois LARPs na casa de uma amiga e também acabamos por jogar todos os cenários By Night publicados até à altura, incluindo todas as Chicago Chronicles.

Uma loja nova de um emigrante Espanhol abriu durante uns poucos anos perto da torre dos Clérigos e a sua variedade de RPGs era semelhante à da Arena Porto, mas era mais fácil tentar encomendar alguma coisa específica e saber-se quando e se poderia chegar. Sendo voltada principalmente para os comics, também lá se podia comprar a revista Espanhola “Dos D Diez” (2d10s) que trazia sempre alguns cenários para RPGs que não da WotC ou da WW, nomeadamente 7th Sea e Call of Cthulhu. Não me lembro do nome do estabelecimento pois falávamos sempre da “loja do Espanhol”. O cavalheiro chegou a falar com um DM para organizar algumas demonstrações de D&D, mas o sucesso da nova edição parecia manter-se dentro de portas. Eventualmente, eu acabei por jogar D&D com um grupo grande de amigos que acabou por se enc0ntrar também na Arena Porto, mas D&D parecia destinado a ficar fechado em casa.

A Dança das Lojas

Outra loja nova abriu, desta vez de um amigo chamado Fernando. Em termos de variedade e destaque dado aos livros em exposição, acredito que esta tenha sido a melhor loja de RPGs que alguma vez existiu em Portugal. Estamos a falar da parede mais comprida da loja toda preenchida de RPGs expostos com a capa virada para a frente. Todos envoltos em celofane para os conservar e impedir que as pessoas jogassem em modo de consulta na loja sem nunca chegarem a os comprar. A chamada “loja do Fernando” tinha múltiplos títulos recentes fora da hegemonia WotC/WW, nomeadamente Nobilis, Witchcraft ou Ars Magica. Claro que a loja sobrevivia graças a uma vertente de CCGs, mas, acabando por beneficiar pouco do muito espaço investido em RPGs, acabou por fechar.

Entretanto, a loja do Espanhol também esteve fechada por longos períodos em que o dono estava em Espanha até que também acabou por nunca mais abrir. A própria Devir Arena Porto teve que repensar as suas contas, primeiro mudando para uma loja ao lado no Crystal Park e depois saindo de lá para um sítio mais pequeno na Rua da Torrinha. No entanto, o espaço dentro do Crystal Park continuava a ser preferido pelos roleplayers, nomeadamente devido a uma esplanada mantida pelo Tropical Burger até altas horas da madrugada. A questão é que, para tornar a ocupação da esplanada interessante para a gerência, só o consumo mantido pelos roleplayers nunca chegaria. Só com a chegada dos boardgamers no final da década é que a “malta dos jogos” se tornaria clientela suficientemente interessante para podermos usar o espaço do Tropical Burger sem problemas.

Outra loja que já existia no Centro Comercial Brasília era a BD Mania que mais tarde mudou o nome para Mundo Fantasma. Tinha algumas mesas disponíveis mas o dono não estava interessado em RPGs e tinha só uma meia dúzia de livros que pareciam ter lá chegado por engano. No entanto, lá juntou-se um grupo para jogos de miniaturas (Warhammer Fantasy) que se interessou por D&D e cheguei a jogar algumas sessões com eles. Mais uma vez, teve de ser na casa de alguém e isso acabou por não ser sustentável.

Finalmente, na Rua Aníbal Cunha também se abriu uma loja grande chamada XXL dedicada aos CCGs e aos jogos de miniaturas. Sei que também se chegou a jogar algum D&D na loja, mas entretanto tiveram que mudar para um sítio mais modesto e reabriram na Rua Óscar da Silva. Foi aí que em 2007 se organizou o primeiro CaragoCon (depois designado de InvictaCon), um sábado cheio de boardgames e RPGs. Já na altura a XXL deixou de ser propriamente uma loja e mais um organizador de eventos com a hipótese de se comer lá alguma coisa. No entanto, este sítio também fechou pouco tempo depois ficando só a Devir Arena Porto como loja de RPGs que, na verdade, já só se limitava a ter na prateleira as sobras do stock que tinha antes de se mudar para a Rua da Torrinha.

Como a Arena pertencia essencialmente ao Magic: the Gathering e enquanto não tínhamos propriamente lugar no Crystal Park, chegamos a experimentar jogar RPG nas praças de alimentação do Bom Sucesso, Dolce Vita e Norteshopping, nomeadamente fiz uma campanha de Cybergeneration num dos cafés mais isolados do Dolce Vita. Outro sítio tranquilo era a parte de cima da gelataria Sincelo na Rua de Ceuta. Perto do Crystal Park, também tínhamos um canto da Confeitaria Palácio que até tinha mesas bem grandes. Também cheguei a jogar numa casa já não habitada pelo familiar de um amigo onde fizemos uma campanha completa de Vampire: the Requiem. Também voltei a jogar numa nova campanha de D&D na casa de um amigo perto das Antas, mas mais uma vez não pudemos fazer isso durante muito tempo.

O impensável acontece: eventos de RPG

Após 2005, com o nascimento do site RPG Portugal que posteriormente mudou o nome para abreojogo, a internet começa a ser não só a fonte de informação mais importante para qualquer roleplayer, mas também um ponto de encontro e de discussão que gera todo o tipo de iniciativas locais e nacionais. Durante anos, falamos de como é preciso arranjar algum formato para promover os RPGs publicamente. Aqui no Porto, eu, o João Cartaxo e o Jorge Palinhos fomos tentando encontrar um espaço e um tempo onde isto pudesse acontecer.

Quando em 2008 a Wizards of the Coast faz sair a quarta edição de D&D promovida através de Game Days, eventos públicos destinados a atrair novos jogadores para as lojas, nós estávamos dispostos a fazer a coisa acontecer no Porto independentemente do que a Devir Arena Porto fizesse ou deixasse de fazer. Nisto também tivemos a sorte da nossa comunidade de boardgamers crescer ao ponto de podermos usar o espaço do Crystal Park dependendo apenas da boa vontade do Tropical Burger. Por isso, quando o barulho e a falta de mesas condicionou demasiado as sessões na Arena, tivemos a hipótese de nos fixarmos novamente no Crystal Park.

Enfim, D&D estabeleceu-se num espaço público no Porto, muito graças ao Raúl Silva e ao Bruno Tamames que, muito para além dos Game Days, abriram campanhas regulares a qualquer pessoa que quisesse jogar. O sucesso desta iniciativa, bem como a criação de encontros mensais de RPG no Porto, consolidou-se na década seguinte, estando para lá do âmbito deste testemunho.

Eu tenho um cartão de crédito e não tenho medo de o usar

De um ponto de vista mais pessoal, a década de 2000 foi um período em que me vi a evoluir bastante como um grande entusiasta dos RPGs. Trabalhei ao balcão da Arena Porto, fui um cliente assíduo da loja do Fernando e estive sempre atento ao que se passava em todos os locais de jogo. Aprendi alguma coisa sobre a dificuldade de fazer qualquer tipo de negócio com a venda de RPGs ou mesmo com a prestação de um espaço para se jogar. Também desenvolvi quase um instinto para ir tentando identificar sítios no Porto onde seja possível jogar. “Aquele espaço ali quase não tem barulho, mas as mesas são minúsculas.” “Aquele sítio é porreiro mas estão sempre a tocar música muito má.”

Durante um breve intervalo, foi possível comprar no Porto alguma variedade de RPGs, mas as lojas acabaram por desistir desta categoria de jogos. Por isso, também foi para mim importante começar a trabalhar e ter uma conta bancária a sério para poder fazer compras à vontade na internet. Quando a quarta edição de D&D saiu, eu já a pré-encomendei da Amazon com um desconto considerável. Quando os RPGs publicados por autores independentes começaram a ser vendidos fora do circuito tradicional, eu pude conhecer em primeira mão ideias muito à frente das que se vendiam por cá. A minha colecção de RPGs tornou-se não só um reflexo do que em outros tempos se podia encontrar no Porto, mas também uma montra variada de coisas impossíveis de se arranjar por aqui.

Mesmo sem ainda ter organizado eventos públicos de RPG, ensinei bastante gente a jogar e fui aprendendo algumas coisas. Explorei practicamente toda a linha da White Wolf desde Kindred of the East até Orpheus, passando por uma campanha de Exalted, duas de Mage e várias experiências com Changelling, Werewolf, etc. Abri os meus horizontes com a primeira edição de Uknown Armies e fui arranjando oportunidades para jogar RPGs diferentes, nomeadamente Kult, Primetime Adventures ou Sorcerer. Percebi as limitações do muito que se pode fazer como jogador ou mestre-jogo e interessei-me pelo design de RPGs, algo impossível de se desenvolver sem o poder da internet.

Compreendi a influência que um mestre-jogo pode ter mesmo a nível da sua cidade, dado o número minúsculo de pessoas que jogam RPG. Pessoas como o João Luís que manteve o fascínio por Vampire: the Dark Ages aceso por muito tempo durante as noites da Arena Porto. Como o Rui que demonstrava um domínio exímio das regras na sua longa campanha de Warhammer Fantasy. Como o Jorge que me mostrou o que pode ser uma grande campanha de Call of Cthulhu muito antes de eu sequer ter pegado no livro. Como o Paulo que exemplificou o arquétipo do mestre-jogo carismático capaz de sessões espectaculares da sua total autoria.

A todos os mestres-jogo que antes de mim fizeram a história do RPG no Porto, fica o meu agradecimento, mas também quero agradecer àqueles que são mais do meu tempo. Pessoas como a Ana que sempre esteve à minha frente em tudo o que fosse da White Wolf. Como a Inês que toda a gente sabia que teria de ser mestre-jogo mais cedo ou mais tarde. Como o Eduardo que ninguém esperava que fosse mestre-jogo tão cedo. Como o João que nos levou por entre os nevoeiros de Ravenloft, onde lá ficou o meu melhor ranger de D&D.

Melhor que a década de 2000, só poderá ser a década de 2010 e aquilo que fizermos por ela, mas é sempre bom olhar para trás e pensar no que se pode aprender com o passado. Por isso, deixo só esta pergunta:

E tu? Qual é o teu testemunho?

Ricardo Tavares

Ricardo Tavares

I love tabletop RPGs, want to see them grow and therefore do a lot of work for the Portuguese role-playing community. And also publish my own games.
Portugal