A Culpa Não é Tua

Em defesa dos bons RPGs


Muitos RPGs se vendem confiando que os seus clientes é que os sabem pôr a funcionar. Podem por isso falhar no seu objectivo de providenciar um bom jogo e serem na mesma apreciados pela popularidade da sua marca, pela qualidade da sua arte/escrita ou pelo fascínio que o seu universo imaginário exerce em quem os compra.

Ao contrário dos boardgames ou videogames, é difícil um RPG ser valorizado por ser bem concebido e, por isso, desculpa-se muita coisa. Pode ser confuso ou ambíguo que alguém na internet o irá explicar, algum livro de conselhos genéricos será publicado para ajudar ou futuros suplementos irão enfim mostrar como tudo faz sentido.

Pode também fazer uma misturada de coisas que se calhar as pessoas gostam e limitar-se a dar permissão (??) aos seus compradores para ignorarem ou modificarem aquilo que acharem que está a mais ou mal feito.

Por isso, o cliente de RPGs também se habitua a ignorar o jogo em si e parte do pressuposto que ele é que vai ter que arranjar maneira daquilo lhe ser útil. Assim, mesmo quando eventualmente lhe aparece um bom RPG, não aproveita verdadeiramente aquilo que lhe é vendido.

Tendo em conta este desfasamento, também há RPGs que oferecem boas soluções, mas, já sabendo que não vão ser bem aproveitadas, adaptam-nas para ficarem próximas daquilo que os clientes já estão habituados a fazer.

Mesmo que um bom RPG consiga convencer um seu comprador a realmente lhe dar uma oportunidade, é bastante provável que aquilo que ele tem de bom dependa de alguma interacção com outras pessoas, pelo que não basta um anfitrião que traga gente até ao jogo se ninguém quiser dançar com ele. A menos que seja um RPG a solo.

Se és um comprador de RPGs, tu não és responsável pelas suas deficiências. A culpa não é tua. Tu não tens que colmatar os seus problemas. Não percas o teu tempo a tentar usar um martelo para colocar um parafuso.

Podes só preocupar-te com escolher o RPG que promete aquilo que queres jogar. E se um RPG não te quer dizer qual é o seu propósito, ou diz mas não cumpre devidamente com ele, a culpa não é tua. A sério.

Já se passaram mais de 40 anos desde a publicação de D&D e o termo “RPG” até já existia antes dela. Na base de dados do rpggeek.com existem mais de cinco mil RPGs registados. A secção de physical games do itch.io semanalmente é ocupada por uma torrente de novos RPGs. Muitos deles são fraquitos. Conforme é muitas vezes citado o escritor de ficção científica Theodore Sturgeon:

Using the same standards that categorize 90% of science fiction as trash, crud, or crap, it can be argued that 90% of film, literature, consumer goods, etc. is crap. In other words, the claim that 90% of science fiction is crap is ultimately uninformative, because science fiction conforms to the same trends of quality as all other artforms.

Em comparação a outras formas de entretenimento, o problema que os RPGs precisam de ultrapassar não é que 90% deles sejam fraquinhos mas o tempo e/ou o dinheiro que perdemos com RPGs fraquinhos. É um ciclo vicioso no qual compramos jogos fraquinhos e por isso jogos fraquinhos continuam a nos ser vendidos. RPGs que nos põem um problema nas mãos e uma descabida autorização para o resolver. É como se dissessem “Há partes deste jogo que podem ser fraquinhas, mas não há problema porque tens a nossa permissão para as ignorar, o importante é que te divirtas!” E se não te divertires, a culpa é tua? És tu que tens de ser melhor jogador? És tu que és mau roleplayer? És tu que tens de aprender a ser um bom DM/ST/GM/MJ?

Não, os RPGs que compras é que têm de ser melhores para te darem ferramentas e não permissões. Mesmo que essas ferramentas sejam brinquedos para ti e para o teu grupo, não deixam de ser ferramentas. Um RPG fixe pode até te oferecer ferramentas para tu também criares ferramentas tuas para jogar. E se não são nada disso, não te deixes enganar pela suposta autorização que te dão para ignorares o próprio jogo que acabaste de comprar. A culpa do jogo ser fraquito não é tua. E podem haver RPGs melhores se formos mais exigentes com eles.

Ricardo Tavares

Ricardo Tavares

I love tabletop RPGs, want to see them grow and therefore do a lot of work for the Portuguese role-playing community. And also publish my own games.
Portugal